Sobre limpar o mato e mudar o mundo


SOBRE LIMPAR O MATO E MUDAR O MUNDO

Ele tirava os matinhos que cresciam entre as pedras que pavimentavam a faculdade.

São tantas as pessoas invisíveis que passam por nossas vidas. A familiaridade, muitas vezes, nos cega. E nos cega para algumas das coisas mais bonitas que acontecem à nossa volta.

Ele tirava os matinhos que cresciam entre as pedras que pavimentavam a faculdade. Não só.

A nobreza não está naquilo que fazemos, mas naquilo que nos tornamos e passamos a ser.

Ana era aluna de medicina em fase de conclusão do curso. Estava inscrita num projeto de atendimento médico à pessoas carentes no Senegal. Era seu grande sonho. Passou boa parte da graduação estudando, também, o país onde iria fazer sua residência.

Entregou todos os documentos no prazo e esperava somente o “ok” formal para seguir adiante no processo e poder pensar nas passagens. Não havia possibilidade de recusa, uma vez que, desde o início do curso, deixou claro seu interesse e intenção de ocupar essa vaga num lugar onde havia pouquíssimo interesse dos demais alunos.

Cinco anos depois, era a hora de preparar as malas.

Autorização negada.

Susto, confusão, decepção. Ana tinha uma dívida que comprometia seu CPF e inviabilizava a possibilidade de viajar a serviço da Secretaria da Saúde. Há alguns anos seu pai havia perdido tudo num negócio onde fora enredado por um sócio. Ana não era culpada, mas, para ajudar o pai, havia cedido seu nome para concretização de um dos contratos.

O que fazemos hoje, ecoa amanhã. Nesse caso, de forma tristemente negativa.

Quando estamos sintonizados com algo que é maior do que nós e que nos impele na direção correta, me parece que, muitas vezes, algumas forças cooperam a nosso favor.

Ana foi avisar aos colegas de turma sobre o ocorrido. O impedimento da concretização de seu sonho virou um assunto de corredor. Todos ficaram sabendo de seu projeto bonito e impetuoso e também da negativa por conta de algo tão pueril. Inclusive o seu Antônio, o homem que tirava os matinhos que cresciam entre as pedras que pavimentavam a faculdade.

No dia seguinte, assim que Ana chegou, seu Antônio estava arrumado, esperando-a. Ela não o conhecia:

  • Moça, fiquei sabendo do seu caso e queria ajudar.

Seu Antônio explicou que trabalhava ali havia mais de vinte anos, que era sozinho, não tinha esposa nem filhos, que via todo mundo ali, de branco, estudando para ajudar os outros e que queria ajudar também, mas não tinha estudo. Então, trabalhava e juntava o pouco que ganhava para, num dia, fazer algo positivo por alguém. O dia havia chegado.

Seu Antônio pagou a dívida de Ana e ainda conseguiu comprar a passagem para a viagem da moça.

  • ­Filha, eu sei que é difícil pra você entender e aceitar, mas aceite sem entender mesmo. Senão, tudo o que fiz e o dinheiro que juntei não me trarão a alegria que podem trazer se você aceitar.

Eu acredito nas pequenas atitudes.

Eu acredito na corrente do bem. Na somatória de pequenas coisas que, feitas com a motivação correta e na direção do bem, podem mudar o mundo.

Eu acredito que podemos mudar a gente mesmo e, assim, ajudarmos a mudar o mundo dos outros.

Ana está no Senegal há seis anos.

Seu Antônio continua mudando o mundo, enquanto tira os matinhos de entre as pedras.

E você?

 

 

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